A civilização do século XXI

01 ago 2017

Inaugurando o Mês de Aniversário do Projetando Pessoas, convidei como escritor convidado, Marcos Cavalcanti, meu amigo de UFRJ, dos tempos da Universidade de Matemática, há alguns poucos anos atrás….(parece que foi ontem!)

Recentemente reencontrei esse grande mestre e doutor que muito me orgulha por compartilhar conosco esse artigo, que nos fala sobre futuro da civilização, sobre Inovação, sobre conectividade…

Vamos nos reinventar, nos transformar e estar sempre à frente do nosso tempo!

Parabéns Marcos por sua trajetória!

Seguem suas credenciais:

Prof. Marcos Cavalcanti –  COPPE/UFRJ – CP 68507

Cep: 21945-970 –  Rio de Janeiro – 

tel: (21) 2562-8254

 marcos@crie.ufrj.br

www.crie.ufrj.br

– Marcos Cavalcanti é doutor em Informática pela Université de Paris XI, professor da COPPE/UFRJ, no Programa de Engenharia de Produção. 
 – Coordenador do CRIE – Centro de Referência em Inteligência Empresarial da COPPE/UFRJ
– Membro do Board do New Club of Paris (http://www.the-new-club-of-paris.org/)
– Editor da Revista Inteligência Empresarial
– Co-autor dos livros “O Conhecimento em Rede” e “Gestão de Empresas na Sociedade do Conhecimento” pela Editora Campus, e “Gestão Eletrônica de documentos” e “Que ferramenta devo usar”, pela Editora Qualitymark
– Coordena os cursos de Pós-Graduação em Gestão do Conhecimento e Inteligência Empresarial – MBKM (Master on Business and Knowledge Management), e Web Intelligence e Analítica de Dados – WIDA (Master on Web Intelligence and Digital Ambiance), da COPPE/UFRJ

 

A civilização do século XXI será em Rede

“Nós escutamos o barulho do carvalho que cai, mas não escutamos o barulho da floresta que cresce. Hoje fala-se muito das coisas que estão desmoronando, que fazem barulho, mas o mais importante é aquilo que não se ouve; é preciso prestar atenção às sementes de consciência que estão brotando” (Jean-Yves Leloup)

Quando tinha uns quinze anos, cheguei em casa joguei meu tênis no armário, bati a porta e o armário desabou estrondosamente! Todos correram para ver o que tinha acontecido e tudo o que consegui balbuciar foi: “não fui eu”.

Minha mãe foi olhar e me perguntou se eu não tinha notado umas “poeirinhas” na roupa. Depois que ela falou, de fato, me lembrei de ter visto várias vezes minha roupa desta forma. “É cupim”, ela esclareceu. Nos registros históricos a data em que o armário desabou foi este dia, mas os cupins já estavam atuando há meses. Ou anos. Eu é que não tinha sido capaz de perceber os sinais…

O Brasil e o mundo estão mudando e os sinais são, a cada dia, mais visíveis. Empresas que não existiam no século passado, como Google, Facebook, Youtube, Amazon já setornaram as empresas mais ricas e poderosas do século XXI, deixando as 7 grandes do petróleo ou da indústria automotiva para trás. A maior enciclopédia do mundo faliu e todos nós usamos a Wikipedia, que é feita de forma colaborativa. Desta mesma forma (colaborativa) nós estamos financiando projetos e iniciativas culturais (crowdfunding) e fizemos o sequenciamento do genoma humano, que está revolucionando a medicina.

Milhões foram às ruas no Brasil, em junho de 2013, sem que ninguém soubesse de onde veio esta gente toda. E as manifestações foram sem palanques, partidos ou gurus. Uma mobilização feita de baixo para cima que deixou claro que sindicatos e partidos não têm mais o monopólio da mobilização popular. Muito pelo contrário.

Os sinais são evidentes, mas muita gente ainda prefere olhar para trás. Sonham com a volta aos séculos XIX e XX, ao mundo industrial, ao conflito entre operários e burguesia, esquecendo-se que os operários estão acabando e a burguesia agora é outra. Outros só conseguem ver o que está desmoronando. Só conseguem ver que o armário caiu. Não conseguem perceber os sinais evidentes da mudança.

Uma exceção a esta regra é professor Roberto Panzaran1i.  Para ele, neste novo século “a conectividade é o destino”. Se nos séculos passados a “geografia era o destino”, agora é necessário mudar os óculos e olhar a realidade sob uma nova perspectiva:

“Velhos argumentos sobre como o clima e a cultura condenam algumas sociedades à falência, ou sobre como as pequenas nações estão destinadas a serem capturadas e estarem sujeitas aos caprichos das grandes, estão deixando de ser válidas. Graças aos transportes, às comunicações e às infraestruturas energéticas globais – rodovias, ferrovias, aeroportos, tubulações, redes elétricas, acesso à Internet e muito mais – o futuro nos reserva uma nova máxima: A conectividade é o destino. Observar o mundo através da lente da conectividade gera novas visões sobre como estamos nos organizando como espécie. As infraestruturas globais estão mudando a cara do nosso sistema mundial: da separação chega-se à conexão, e da nação, ao nó. Uma infraestrutura é como um sistema nervoso que conecta todas as partes do organismo planetário; o capital e os códigos são os impulsos que nele fluem. A expansão da conectividade dá à luz um mundo além dos Estados, uma sociedade global que é maior do que a soma de suas partes. Assim como no passado, o mundo evoluiu de impérios verticalmente integrados para Estados horizontalmente interdependentes, e agora está se encaminhando para uma civilização de rede global, cujo mapa dos corredores de comunicação irá substituir os mapas tradicionais das fronteiras entre Estados”. (Parag Khanna, Connectography)

Estar conectado passou a ser ainda mais importante com a globalização: “O que está acontecendo com a globalização é a configuração de uma nova lógica do indivíduo e dos conhecimentos que o descrevem. Global é aquele “eu” capaz de atravessar os processos em andamento, encontrando, para cada um deles, a chave correta de acesso. Com a globalização, estamos testemunhando “um salto de qualidade no processo de individualização”, que tem seu eixo na reestruturação dos espaços e das formas de vida. O “eu” global é, na melhor das metáforas, o novo viajante (…) O “eu” tradicional assistiu a mudança dos pressupostos e dos suportes que o haviam estruturado, da soberania ao direito, da política ao prazer. As mudanças que estão ocorrendo, em que está envolvido o próprio “eu”, são um jogo inteligente que oscila entre dinâmicas opostas. Desde que o mundo se tornou acessível na sua totalidade, o indivíduo tentou criar novos espaços e se reinventar. A globalização conseguiu abalar profundamente hábitos, contextos políticos e culturais, gerando uma crise de identidade que o homem tenta preencher através da reestruturação e da valorização das suas competências e atitudes. Diante deste novo cenário, a integração entre os povos deve se tornar fundamental para garantir a igualdade, o respeito mútuo e a harmonia entre todos os seres humanos” (Roberto Panzarani).

Para fazer frente a este processo sem sucumbir, os indivíduos estão se organizando em Rede. De fato, vários estudos feitos por especialistas têm demonstrado a importância das redes sociais para o desenvolvimento do conhecimento, da riqueza e até mesmo da saúde das pessoas: “a falta de conexão social gera danos à saúde, como obesidade, tabagismo e hipertensão, enquanto uma forte conexão social leva a um aumento de 50% de probabilidade de longevidade, fortalece o sistema imunológico e ajuda a se recuperar mais rapidamente de doenças. Pessoas conectadas têm níveis mais baixos de ansiedade e depressão, têm maior autoestima, maior empatia com os outros, estão mais confiantes, colaborativos e, portanto, vivem relações mais abertas à cooperação. Em outras palavras, as relações sociais geram um ciclo de feedbacks positivos na dimensão social, emocional e no bem-estar físico” (Emma Seppala).

Todos os dias caem árvores nas florestas mas, sobretudo, estão germinando novas consciências que estão transformando radicalmente o mundo que vivemos. Todos os dias chove no futuro…  Então, coloquemos nossos sensores, nossa sensibilidade e nossa razão em ação para aproveitarmos este admirável mundo novo. Tem um mundo acabando, mas tem um outro começando. Basta termos olhos para ver e estarmos atentos aos sinais deste futuro que já começou. Ele não está pronto, nem está escrito nas estrelas. O que ele vai ser depende de cada um de nós.

Mas nós não estamos sozinhos. Como nos lembra Roberto Panzarani, “Penso, então, que é importante, nesta era de interconexão tecnológica, uma “educação para a sociabilidade”, começando dos mais jovens, e que permita que a maravilhosa tecnologia disponível se torne uma ferramenta importante, antes de tudo, para nos conectarmos como seres humanos, ou, como se dizia antigamente “de pessoa para pessoa”.

Vamos nessa?

Marcos Cavalcanti
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